Numa fase anterior das minhas pesquisas sobre as sociedades contemporâneas, configurei o actual estado do sujeito na sua mecânica repetição de rotinas de consumo e apático alheamento de valores essenciais, com o da melancolia. Interrogava-me se não estaríamos imersos numa melancolia civilizacional, diagnosticável no sujeito e em grupos alargados à sua volta, numa mise-en-abîme que se constituía como presença invisível nas sociedades actuais. Posteriormente percebi a impossibilidade dessa proposição. É que, o que é próprio do estado melancólico é o processo de individuação. Ao sentir e pensar estou melancólico o sujeito vem a si, toma consciência de si. E, o que se passa na actualidade, é um processo de desindividuação. Constatamos que a tendência é de que não se configure sequer espaço/tempo para a emergência da melancolia. O sujeito está permanentemente convocado para uma rotina de consumo/produção/exteriorização, para uma permanente programação do seu tempo, nomeadamente o seu tempo livre e, inserido numa lógica de exaltação do negócio. Ora, o estado melancólico é em si mesmo um processo de individuação e intrinsecamente relacionado com o tempo de si, com o otium enquanto culto da singularidade e da individuação que, como frisa Stiegler, o advento do negotium (nec-otium) veio aniquilar. Com efeito, na pós-modernidade em que nos encontramos neste início de século XXI, constatamos que a par do notório desenvolvimento científico e tecnológico dos últimos séculos, se perdeu um proporcional desenvolvimento das técnicas do espírito. E assistimos a uma forte incrementação de técnicas de desindividuação e de des-subjectivação, que reduz o valor da excepção e do singular, com a consequente redução da consciência de si do sujeito., in A Rapariga Que Queria Ser Feliz Todos Os Dias, vide "alienação civilizacional, arte e melancolia", artciencia.com [http://www.artciencia.com/index.php/artciencia/article/view/47],
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sábado, 16 de junho de 2012
arte de viver e técnicas do espírito
Numa fase anterior das minhas pesquisas sobre as sociedades contemporâneas, configurei o actual estado do sujeito na sua mecânica repetição de rotinas de consumo e apático alheamento de valores essenciais, com o da melancolia. Interrogava-me se não estaríamos imersos numa melancolia civilizacional, diagnosticável no sujeito e em grupos alargados à sua volta, numa mise-en-abîme que se constituía como presença invisível nas sociedades actuais. Posteriormente percebi a impossibilidade dessa proposição. É que, o que é próprio do estado melancólico é o processo de individuação. Ao sentir e pensar estou melancólico o sujeito vem a si, toma consciência de si. E, o que se passa na actualidade, é um processo de desindividuação. Constatamos que a tendência é de que não se configure sequer espaço/tempo para a emergência da melancolia. O sujeito está permanentemente convocado para uma rotina de consumo/produção/exteriorização, para uma permanente programação do seu tempo, nomeadamente o seu tempo livre e, inserido numa lógica de exaltação do negócio. Ora, o estado melancólico é em si mesmo um processo de individuação e intrinsecamente relacionado com o tempo de si, com o otium enquanto culto da singularidade e da individuação que, como frisa Stiegler, o advento do negotium (nec-otium) veio aniquilar. Com efeito, na pós-modernidade em que nos encontramos neste início de século XXI, constatamos que a par do notório desenvolvimento científico e tecnológico dos últimos séculos, se perdeu um proporcional desenvolvimento das técnicas do espírito. E assistimos a uma forte incrementação de técnicas de desindividuação e de des-subjectivação, que reduz o valor da excepção e do singular, com a consequente redução da consciência de si do sujeito., in A Rapariga Que Queria Ser Feliz Todos Os Dias, vide "alienação civilizacional, arte e melancolia", artciencia.com [http://www.artciencia.com/index.php/artciencia/article/view/47],
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cenas banais
dois homens conversam,
um terceiro vai absorto num projecto de evasão :
acompanhar o trajecto do sol
e o movimento da lua,
a qualquer momento poder parar e estar
no tempo presente sem necessidade de desviar o olhar daquilo que não se quer ver
(...)
pessoas que calam porque lhes é demasiado grande o que têm para dizer.
in "a rapariga que queria ser feliz todos os dias",
d´Orzac, 2012
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sexta-feira, 25 de maio de 2012
sou nada e ninguém me vê
Sou nada e ninguém me vê.
O tempo passa sempre igual e neste vazio rotineiro em que se tornou a minha vida arrasto a minha pouca coragem.
Há dias o comboio parou.
Alguém se atirou à linha e stop enquanto se desenrolavam os processos legais.
Ficámos todos dentro das carruagens,
primeiro perplexos,
depois ansiosos
e logo excitados e com nervoso miudinho.
Tagarelavam sobre o assunto como se fosse tema de convívio.
Agitação, gente nos corredores, telefonemas, espreitar pelas portas e janelas. Uma estrangeira interrogava porque se riam as pessoas, porque falavam com tal vivacidade.
Sentia ela como se tivesse esmagado,
a própria feita máquina,
o corpo ainda quente na primeira pessoa do singular com ferro e metal.
Sentia debaixo de si.
A massa de sangue nos carris.
Eu fiquei calmo.
Não tinha pressa.
Não ia a lado nenhum.
Nada de novo.
E ali estava acompanhado.
Deixei-me ficar sentado.
Pus-me a imaginar o espírito do suicida a deixar a carne sem vida.
A passar por nós e a elevar-se no ar
como um balão que se desprende da mão de uma criança empurrado pelo vento.
Amen.
Que assim seja.
Agora também estou calmo.
Ninguém me vê e todas as semanas há mais um que se atira à linha.
De todas as vezes me interrogo:
será neste?
- A Rapariga Que Queria ser Feliz Todos os Dias, d´Orzac, 2012.
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quinta-feira, 5 de abril de 2012
Quão Diferente Pode Ser O Olhar
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

gosto particularmente da experiência plástica que usufruo neste tipo de imagem.
do ponto de vista fotográfico interessa-me a dialogia entre a matéria orgânica:
árvore,
tessituras,

marcas, rasgos,
veios, inscrições,
sinais naturais,
cromatismos como se tela pintada fosse,

folhas,
paletas do Outono ainda com laivos de fogo,
cheiros e ambientes que vêm à memória,
a matéria fixa tecido nobre,

veludo azul cobalto, matéria cultura-história-estética,
neste caso em forte dinâmica de contraste com o metal em prata,
pobre e forte, aço arame,
nobre e pobre, suave e duro,
dialética de contrastes

e a surpresa do invisível que se torna visível,
o que não estava lá mas se revela,
pedaços de neve,
ou de sonhos,
em gotículas brancas.
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uma vaca flatterzunge
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
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